Poema/Processo


Poema/processo é aquele que, a cada nova
experiência, inaugura processos informacionais.
Essa informação pode ser estética ou não: o
importante é que seja funcional e, portanto,
consumida. O poema resolve-se por si mesmo,
desencadeando-se (projeto), não necessitando de
interpretação para a sua justificação.

Wlademir Dias-Pino

Diante da nova realidade técnica, cósmica, experimental e social, evidencia-se o pensamento cibernético de Norbert Wiener. Em 11 de dezembro de 1967 foi aberta ao público a Mostra de um novo Movimento de Poesia de Vanguarda, no Brasil – o Poema/processo. Inaugurada em Natal, no Museu do Sobradinho, atualmente Museu Café Filho e no Rio de Janeiro, na Escola Superior de Desenho Industrial – ESDI e no ano seguinte em Minas Gerais e estados Nordestinos como a Bahia, Pernambuco, Paraíba e Ceará.
No Poema/processo podemos observar um comportamento estético de característica eminentemente experimental, um certo descuido proposital com a arte-finalidade aspirando materialmente a informação estética/conceitual o que o situa como evento anterior à arte conceitual internacional dos anos 1970 e da process art (povera).
O Poema/processo, diria Haroldo de Campos, “é menos um movimento do que uma especialização. Quer dizer...ou melhor, os poetas que se preocuparam com a poesia concreta...com a poesia/processo...eles se especializaram numa faixa do poema concreto”(GALVÃO, 2004, p. 163 e 164), ou seja, houve uma radicalização de certa vertente da Poesia Concreta, a “poesia semiótica”, proposta teórica de Luiz Ângelo Pinto e Décio Pignatari (CORREIO DA MANHÃ, 27/07/1974, p. 4 ), sob o signo da “Nova Linguagem, Nova Poesia”.
Em alguns casos, na poesia concreta até o presente, foi possível a criação de textos nos quais a sintaxe deriva o próprio desenho dos signos usados. É o caso da última fase do poema “organismo” e especialmente, do poema “LIFE” ambos de Décio Pignatari. Esses casos só foram possíveis graças a certas virtualidades dos desenhos dos próprios signos.

Décio Pignatari – Life
(REVISTA NOIGANDRES, 1958, p. 35)

Falando de novas linguagens, não podemos deixar de citar ainda, como precursor, o conjunto de textos “SOLIDA” (1962), de Wlademir Dias-Pino, onde “Poesia e arte gráfica se dão as mãos num projeto que reintegrarão o poeta em seu tempo, na pesquisa construtiva de uma nova linguagem” (CAMPOS, 1978, p. 75).

Wlademir Dias-Pino - Solida (AMARAL, 1977, p. 155)

Wlademir Dias-Pino - A Ave (DIAS-PINO, 1956, n.p.)

Foram estes os produtos da poesia trans/espacialista de Wlademir, e da Poesia Semiótica, que o movimento do poema/processo radicalizou num intercâmbio internacional/(interacional) em processo antropofágico, feed back via correio e suas extensões, onde hoje convivemos em todas as instâncias da informação contemporânea, com um processualismo continuum, global; signos gerando signos da poeticidade, onde poesia e arte gráfica se deram as mãos. O poema/processo acha-se inserido dentro de uma postura hermética, “processo em progresso” (work in progress), como diria Harold Bloom, em sua “Cabala e crítica”, “onde cada estágio era estreitamente ligado ao estágio subsequente...” (BLOOM, 1991, p. 48), dentro de uma visão prospectiva permutacional, na definição de Wlademir Dias-Pino, “aquele, que, a cada nova experiência inaugura processos informacionais.”
Tal pensamento se processa continuamente; materialmente, remetendo-se ao hoje informacional, ou seja, um hermetismo post/contemporâneo, de volta ao passado, ao barroco, em primeira instancia “mitopoética”, tendo como referente este teor incógnito, numa perspectiva progressiva, in process, indo além da metafísica e em plena sincronia com o pensamento peirceano, semiótico.
Dentro da sua proposição, o poema tornou-se obra viva (ópera/vitae) ou “o poema é um acto”, como diria Melo e Castro sobre o poema/processo (Brasil) ao classificar os diversos tipos de poesia experimental (HATHERLY; MELO E CASTRO, 1983, p. 115), a versão, da matrix à seriação, a multiplicidade, onde o poema se auto(supera), gerando inclusive novos autores, ou como propunha Wlademir Maiakóvski, em 1928: “...se um livro é endereçado a uns poucos como a energia de Volkhovstrói se dirige a umas poucas estações transmissoras, para que estas subestações distribuíam pelas lâmpadas elétricas a energia reelaborada, semelhante livro é necessário. Tais livros são endereçados a uns poucos, mas, não consumidores, e sim produtores”. O poema/processo como Signo da pós/modernidade incorporou elementos e/ou processos outros; outras instâncias artísticas contemporâneas, tais como, a música eletroacústica, a pintura, o cinema, o objeto, a performance corporal, o happening...
Aqui caberia nos reportar ao conceito de aura, proposto por Walter Benjamin: “o conceito de aura permite resumir: o que se atrofia na era da reprodutibilidade técnica da obra de arte é sua aura. Esse processo é sintomático, a sua significação vai muito além da esfera da arte” (BENJAMIN, 1969, p. 168).
Tendo como proposta tornar público o debate acerca da problemática da poesia brasileira, no Rio de Janeiro, durante a 2ª Exposição Nacional do poema/processo realizaram um rasga-rasga de livros de poetas literários como João Cabral de Melo Neto e Carlos Drummond de Andrade, nas escadarias do Teatro Municipal, entre outros poetas canônicos brasileiros. Um Happening semelhante foi programado para acontecer na cidade do Natal, mas foi impedido pela polícia, desta vez os antipoetas incendiários em sincronia com a chamada Revolução Cultural de Mao Tse-Tung. Os poetas iriam literalmente queimar os autores discutidos e intelectuais consagrados como Luis da Câmara Cascudo. Tais acontecimentos tendo sito interpretados como actos fascistas, na realidade eram ações simbólicas bem dentro do espírito dos futuristas, sob o signo do “espantar pela radicalidade”, provocando/implodindo a media, a exemplo da reportagem de duas páginas publicadas na revista carioca “O Cruzeiro”.

Rasga-Rasga – Cinelândia/RJ 1968, (Revista O Cruzeiro, 1968, n.p.)

Outros acontecimentos se realizaram, a exemplo do Pão Poema/processo com 2 metros comido por cinco mil pessoas na Feira de Arte de Recife. Outra ação performática que podemos destacar como a música/processo “Relógios”, de Marcos Silva e Joel Carvalho produzida com o ruído de inúmeros despertadores, durante um festival de Música realizado no Palácio dos Esportes, em Natal. Em dezembro de 1972 o Movimento lançou o Manifesto PARADA – opção tática, dando por encerrado o Poema/processo como Movimento Programático. Poemas seriam produzidos continuamente.

Proposição
(DIAS-PINO, 1968, p. 99)

Sobre o manifesto “proposição” lançado durante a quarta exposição nacional do poema/processo no MAM de Salvador/BA, nos reportemos a Benjamin, quanto a questão da aura: “só o consumo é lógica. Consumo imediato como antinobreza”. Segundo Benjamin “nas obras cinematográficas a reprodutibilidade técnica do produto não é uma condição externa para sua difusão maciça. A reprodutibilidade técnica do filme tem seu fundamento imediato na técnica de sua produção. Esta não apenas permite, da forma mais imediata, a difusão em massa da obra cinematográfica, como a torna obrigatória. A difusão se torna obrigatória, porque a produção de um filme é tão cara que o consumidor que poderia, por exemplo, pagar um quadro, não pode mais pagar um filme.” (BENJAMIN, 1986, p. 172). Hoje, com os avanços da comunicação e a multiplicidade dos processos tecnológicos reprodutivos, podemos ter acesso a cópias em vídeo e/ou DVD tão acessíveis quanto o ingresso de um filme, ou seja, a materialização da obra de arte múltipla contemporânea, o múltiplo dos anos 1960. Observa o poeta/processo e teórico Álvaro de Sá acerca de Benjamin, “embora limitado pelo repertório da época, procura demonstrar a transição pela qual deveria passar a arte, a qual seria segundo ele, atingida pela multiplicação” (SÁ, 1977, p. 39), ou seja, “só o reprodutivo atende, no momento exato, as necessidades de comunicação e informação das massas”. Estabelece-se, assim, uma lógica de consumo, num processo probabilístico, operatório de linguagens permutacionais, evidenciando-se o múltiplo na sociedade de consumo, a multiplicidade da arte (industrial design) e as técnicas reprodutivas da imagem e/ou signagem poética “semiótica”.

Proposição (cont.)
(DIAS-PINO, 1973, np)

Ainda na área da sonoridade o poeta potiguar Frederico Marcos desenvolveu pesquisas com o som na perspectiva de uma música/processo. Joel Carvalho em parceria com Jota Medeiros desenvolveram pesquisas na área eletroacústica, materializada no vídeo “Galáxias”, sobre um fragmento do poema homônimo de Haroldo de Campos, que o classificou como versão estrutural, já em 1991. O vídeo “Galáxias” se inseriria, portanto, num redimensionamento das propostas cinéticas do artista natalense Abraham Palatnik, utilizando o “computador eletrônico como pesquisa musical”. De Pernambuco, podemos destacar o poeta J. Lins, com a sua antifonia e a vertente tropicalista do maestro paraibano Marcus Vinícius, autor do LP "Dédalus".

Jota Medeiros - Galáxias
(MEDEIROS, Vídeo Galáxias, 1991)

Dentro do processo editorial, o poema/processo produziu livros/poemas, estética herdada de Wlademir Dias-Pino, e do Neo/Concretismo podemos citar produtores norte-rio-grandenses como Falves Silva, Bosco Lopes, Dailor Varela, Moacy Cirne, J. Medeiros e Carlos Jucá. Posteriormente ligados a arte/correio e a poesia visual, Venâncio Pinheiro, Avelino Araújo, Carlos Humberto Dantas entre outros, bem como revistas de invenção como Processo, Vírgula e Projeto aliada depois a Povis (síntese de poema + visualidade), a poesia visual nos anos 1970 foi necessariamente e intensamente produzida por estes jovens sobre a influencia do poema/processo.
As histórias em quadrinhos foram temática/signo de alguns poetas/processos, numa redefinição de HQs essencialmente semióticas, a exemplo do carioca Álvaro de Sá com os seus POEMICS do brasiliense Hugo Mund Jr. e o potiguar Falves Silva, em plena sincronia formal com o construtivismo barroco selvático de Wlademir Dias-Pino.

Povis - Da esquerda para a direita, Unhandeijara Lisboa (PB), Juhareiz Correya (PE),
Ricardo Lins (RJ), Marconi Notaro e Paulo Bruscky (PE). (Foto: Leonhard Frank Duch)

Enfim, o poema/processo é o poema reprodutivo dos anos 70 e se caracteriza como obraberta, obra-viva, em contínuo processo.

CRONOLOGIA

1967:
- Inauguração formal do Movimento.
- Exposição Nacional de 11 de dezembro.
- Inaugurada simultaneamente no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Norte:
Lançamento da revista Ponto 1 e da Proposição.
Suplemento d’O Sol (RJ) editado para catálogo da exposição.
Lançamento de 12 x 9, de Álvaro Sá.

Ponto 1
(REVISTA Ponto 1, 1967, capa)

1968:
- 2ª Expo: Escola de Belas Artes – RJ (janeiro).
- “Rasga-rasga” de livros de poetas discursivos nas escadarias do Teatro Municipal (RJ).
- 3ª Expo Nacional de Poema/Processo (abril).
- Arte Pública no Aterro (agosto)
- Lançamento de Ponto 2 (outubro).
1969:
- Instituto Torquato Di Tella (Buenos Aires): Expo/Internacional de Novíssima Poesia de Vanguarda, onde o Brasil apresentou o maior número de poemas do grupo do poema/processo (março).
- Galeria U (Montevidéu): Exposición Internacional de la Nueva Poesia (participação dos poetas/processo – julho).
- Lançamento pela Editora OVUM, do Uruguai, de uma publicação totalmente dedicada ao poema/processo (novembro).
1970:
- Atuação constante em periódicos e revistas do país, como, por exemplo, a Revista Vozes (número especial sobre a Vanguarda Brasileira – caminhos & situações).
- Feira de Arte (Recife) – pão-poema/processo, deflagrado pela Frente Pernambucana (abril)

Pão Poema/processo
(DIAS-PINO, 1973, n.p.)

- Lançamento do livro A explosão criativa dos quadrinhos, de Moacy Cirne (julho). Lançamento de Processo (caixa-revista organizada e lançada por WDP – Rio, setembro).
- Expo Internacional de poemas/processo e outros poemas visuais (outubro).
1971:
- Lançamento de Processo: Linguagem e Comunicação, de WDP (março), pela Editora Vozes.
- Mudança tática: investida didática nas diversas áreas universitárias: aulas, palestras, seminários, exposições.
- Expo Internacional de Proposiciones a Realizar (CAYC, Buenos Aires), tendo comparecido como debatedor o poeta WDP (Julho).
1972:
- Exposición Exaustiva de la Nueva Poesia, na Galeria U (Montevidéu – fevereiro/abril).
- Parada – Opção Tática: manifesto encerrando as atividades do movimento, que se reserva à uma possível futura ação planejada, em novas condições.
- Como único movimento inaugurado já com um manifesto (a Proposição de 1967) e atuando planejadamente, o poema/processo, após 5 anos, encerra suas atividades coletivas, sem quaisquer cisões ou diluições.
Atualmente os poetas participantes continuam pesquisando/criando/atuando em diversas áreas: ensino, publicidade, cinema etc.
A presente cronologia foi publicada na Revista de Cultura Vozes, n.1, 1978, em edição especial comemorativa; o Poema/Processo e as Linguagens Experimentais (revista especialmente para este projeto).

Falves Silva - Projeto 9
(SILVA, 1976, folha avulsa)

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